O contrabaixo contemporâneo de Vagner Faria

Wilson Garzon - Em sua formação musical, o contrabaixo foi a sua primeira escolha?
Vagner Faria - Aos 13 anos por influência do meu irmão mais velho o interesse pela música despertou. Eu ia aos ensaios e shows das bandas que ele tocava. Meu primeiro instrumento foi o violão, passei brevemente pela guitarra e fui então apresentado ao contrabaixo, foi paixão à primeira vista.

WG - Quais foram as suas principais influências jazzísticas?
VF - Tive uma formação autodidata, com uma base mais rock and roll, passava as tardes tirando os discos do Rush. A descoberta da música instrumental me abriu novos e promissores horizontes. Até então eu pensava que todos os solos eram compostos e sempre tocados da mesma maneira, não imaginava que era possível "improvisar". Renato Saldanha(violão/guitarra) tem muita culpa nessa história, rsrsrsr. Quando o conheci(ele tinha 16 anos),eu realmente fiquei impressionado com o domínio que ele com tão pouca idade já tinha do instrumento, nossa amizade foi imediata, e claro, se tornou a minha maior influência. Ele já tocava tudo, desde standards, sambas, bossa, Beatles.

WG - Conte-nos um pouco sobre o jazz Divinópolis, sua cidade natal.
VF - Divinópolis é uma cidade como qualquer outra cidade de interior, não sofremos tanto com o trânsito e a falta de tempo comum às capitais e grandes centros, mas estamos longe de tudo. A internet nos permite estar presente virtualmente, o que já é um grande passo se compararmos a vinte anos atrás. Minha carreira não seria possível sem a www. Voce provavelmente não estaria lendo esta entrevista aqui agora. Divinópolis sempre revelou grandes artistas, são meus conterrâneos, Adélia Prado e Túlio Mourão.(que gravou algumas faixas no meu primeiro cd, e que tenho acompanhado em seus shows). A atual secretaria de cultura da cidade tem promovido alguns bons eventos em Divinópolis, a Rua do Rock e o projeto Boa Praça são projetos que valem a pena ser citados, mas no que se refere a espaço para a música instrumental, somos nós mesmos quem buscamos o nosso espaço. Sempre digo: Se não existe caminha a gente inventa. Ficar de braços cruzados, jamais! Mas, essa realidade não é exclusiva de Divinópolis. O problema é cultural e valeria uma entrevista à parte pra discutirmos a questão.

WG - Em 2010, vc lançou seu primeiro trabalho solo, "Além do Olhar". Qual foi o conceito desse seu trabalho? Gostou da repercussão?
VF - Em 2010 após ser um dos vencedores do Prêmio BDMG Instrumental, chegar ao primeiro disco foi um caminho natural. Tudo conspirava à favor. Fomos pro estúdio com o disco praticamente pronto, tudo definido. Entramos, e gravamos. O conceito básico do primeiro disco é a democratização da música. O que quero dizer com isto? Quero dizer que não faço música pra músicos, faço música. Onde ela vai chegar? Impossível mapear. O disco me levou a alguns palcos que eu jamais poderia imaginar como, Sesc Instrumental, Rio Das Ostras Jazz e Blues, Vijazz, Niterói Jazz Festival. Em Rio das Ostras o show foi mágico, fui muito bem recebido pelo público(107 discos vendidos antes do show terminar)num evento onde eu era o primeiro artista a se apresentar no principal dia do festival, onde ainda tocariam, Stanley Clark, Victor Wooten e Scott Henderson.

WG - Agora, vc está lançando seu novo cd "Enquanto as folhas caem". Foi uma evolução ou uma mudança radical em relação ao primeiro cd?
VF - Quase quatro anos se passaram desde o lançamento de primeiro álbum "Além do Olhar" lançado em Setembro de 2010. "Enquanto as folhas caem" é o nome do novo disco. O título nos alerta sobre tempo que está sempre passando e que muita das vezes não percebemos. Nos acostumamos a protelar os nossos sonhos a espera do momento ideal.

A principal diferença enter o primeiro cd "Além do Olhar"e o "Enquanto as folhas caem" foi o processo de composição dos discos. No primeiro trabalho chegamos ao estúdio com o disco ensaiado, os arranjos bem definidos, pouca coisa mudou dentro do estúdio. Já no segundo cd, cheguei ao estúdio com as músicas todas escritas, com uma demo(baixo e metrônomo) apenas com as melodias definidas e um turbilhão de idéias na cabeça. Concebemos, ensaiamos arrajamos o disco dentro do estúdio. A participação de todos os músicos envolvidos foi de fundamental.

WG - Sobre o repertório, há destaques? E quanto aos músicos, como foram feitas as escolhas?
VF - Brinco como a pessoal que essa banda agora só precisa de um baixista. Só tem faixa preta, rsrs. Além do cd, esse novo projeto conta também com o dvd( Enquanto as folhas caem.doc), onde registramos o making off de todo o processo de gravação do disco, desde a concepção a gravação final. Convido a cada um de voces para assistirem ao dvd, assim cada um poderá tirar suas próprias conclusões. Só posso dizer, que tá bonito demais. Conseguimos captar em vídeo a energia que estava dentro do estúdio. No início do projeto, não havia programado nenhuma participação. Mas as músicas vão criando forma e pedindo os elementos necessários.

É engraçado pensar como todos os músicos que participaram do disco abraçaram o projeto com um carinho especial. O time titular é formado por Arthur Rezende(bateria) Christiano Caldas(teclados) e Renato Saldanha(violão e guitarra), as participações de Célio Balona com toda sua elegância e simpatia, arrancou lágrimas coletivas no dia da sua gravação, Bill Lucas com o seu astral a mil, Edvaldo Ilzo e toda a sua delicadeza na bateria, Enéias Xavier e suas notas pra lá de especiais, Fernando Sodré com sua viola caipira, mas com um sotaque jazzístico, Marcelo Martins, também me fez chorar com um solo maravilhoso de sax tenor, Guilherme Fonseca com sua vibração Rock and roll, e Wilson Sideral com sua pegada pop com uma energia e doação insuperáveis. Não podia ser se não fosse com esses caras.

WG - Em relação à divulgação, o que está programado? E quanto aos próximos projetos, que novidades estão sendo trabalhadas?
VF - Como a grande maioria dos artistas da música instrumental no país, não tenho um produtor para gerir minha carreira, eu mesmo é quem cuido de tudo. Tenho usado as redes socias para divulgação do novo disco, Twitter, Facebook, Youtube, além do meu próprio site www.vagnerfaria.com.br . Mesmo com todas as dificuldades pelas quais nós artistas independentes enfrentamos diariamente, o feedback tem sido muito positivo. Já envie discos para oito estados do Brasil e quatro países. O primeiro show do novo disco acontece no dia 18 de junho em Belo Horizonte, no teatro Júlio Makenzie, no SESC Palladium. Em Divinópolis este mesmo show acontecerá um Julho(ainda sem data definida), no dia 30 de Agosto me apresentarei no Festival de Gastronomia em Tiradentes/MG.

WG - Como vc analisa o atual cenário do jazz brasileiro e em particular, em Minas.
VF - A produção musical no Brasil nunca foi tão grande tanto em quantidade quanto em qualidade como nos dias de hoje. Com a democratização dos meios de produção, só não produz quem não quer. O mercado mudou muito, e na minha opinião mudou pra melhor. Há vinte anos atrás eu não teria a menor chance de produzir, muito menos de divulgar o meu trabalho. Particularmente em Belo Horizonte há uma cena de música instrumental muito bacana, a rapaziada tá tocando bem, compondo, gravando discos e fazendo shows. Há uma corrente de lamentação que diz que no nosso país está tudo errado etc e tal...mas vamos ficar sentados e reclamando até quando? A prova é que o Grammy de melhor álbum de Jazz latino pertence ao Trio Corrente.